quinta-feira, 25 de junho de 2009

Amor: o Belo e a Arte na vida cotidiana

O ofício do artista exige mais do que a aptidão técnica – a habilidade para a pintura ou desenho, o domínio das palavras ou a familiaridade com um instrumento musical, por exemplo. É preciso, além desse conhecimento, ter uma percepção apurada, uma sensibilidade especial que permita extrair a beleza, elemento fundamental da arte, daquilo que se vê.


Em seu ensaio “O pintor da vida moderna” (1863), Baudelaire exalta a capacidade dos artistas de enxergar o mundo com os olhos de uma criança – perceber nas coisas a beleza, que é ao mesmo tempo eterna e efêmera; deixar-se deslumbrar com o que, muitas vezes, passa despercepido pelos sentidos embotados dos homens comuns. Assim, um pintor como C.G., vê nos raios de sol que chegam à sua janela pela manhã tanta beleza que seria um enorme desperdício não contemplá-los, com a intenção de capturar sua instantaneidade e ao mesmo tempo sua atemporalidade. A arte tenta registrar essa realização fugaz de uma beleza imutável.


Não seríamos, então, todos nós, em algum momento de nossas vidas, grandes artistas? Ao menos no que se refere à percepção de uma beleza sublime em coisas aparentemente comuns, acredito que sim. Caso contrário, a contemplação de uma obra de arte não nos causaria absolutamente nenhum efeito. Todos nós somos, pelo menos uma vez, inspirados por acessos de sensibilidade artística, ainda que não consigamos externar a sensação que nos é provocada pelo belo através da concretização de uma obra de arte. – Falta-nos, muitas vezes, não só a técnica para executá-la, mas também a habilidade para lidar com esse torpor, essa desorientação que nos acomete quando temos nossos sentidos subitamente invadidos pela beleza. (É válido comentar que utilizo o termo beleza aqui de uma maneira que pode parecer, a alguns, um pouco genérica; uma vez que não está necessariamente relacionada a uma reação positiva e agradável. Não é minha intenção neste texto, porém, aprofundar-me nessa definição.)


Se não tivéssemos, nós, leitores e apreciadores do objeto artístico, experimentado alguma vez, em algum grau, a mesma sensação que experimentou o artista, a obra de arte não nos atingiria. E é exatamente o que ocorre, muitas vezes. Um quadro que não nos diz nada, não nos emociona, pode ser absolutamente tocante para uma outra pessoa. Um poema que não causa nenhuma reação a um indivíduo pode representar uma epifania para outro. Talvez isso possa ser explicado pela necessidade de uma interseção qualquer entre a experiência do autor e aquela do leitor (ou espectador) que permita que a obra “funcione” – ainda que represente ideias diferentes para cada um deles.


Há uma maneira bastante simples de reformular isso tudo por meio de um exemplo – o maior de todos os exemplos: o amor. O amor é, definitivamente, o tema mais abordado pelos artistas nas mais diversas linguagens, e também aquele que encontra uma maior receptividade do público. O amor é justamente aquela interseção de que falei há pouco – é o denominador comum entre quase todos os homens. A obra de arte que fala de amor é massivamente acolhida, porque todos compartilhamos essa experiência de beleza.


O amor tem ainda uma outra propriedade interessante: ele nos abre os olhos para a beleza. Nada como o amor para fazer-nos ver de uma forma assustadoramente intensa a beleza em uma pessoa, por exemplo – atire a primeira pedra aquele que nunca se viu pasmado diante do ser amado, pensando apenas “Meu Deus, como é lindo!” e sem conseguir entender o porquê. Abre-nos os olhos para as belezas do mundo ao nosso redor de uma maneira geral – não faltam expressões populares que dizem respeito a isso, como “ver o mundo em cor de rosa”...


O tema do amor é o mais recorrente na poesia e nas artes justamente porque é aquele que, mais comumente, desperta no artista essa sensibilidade à beleza, ao frescor daquilo que se vê – ainda dentro da ideia baudelairiana da dualidade do belo. Eis mais uma comprovação de que o amor nada mais é do que a percepção exacerbada, essencialmente artística, da beleza humana por um homem comum. Assim como os raios de sol incidindo em uma janela nunca são os mesmos – sempre possuem algo de momentâneo, de presente (ou de passado), de efêmero –, uma pessoa nunca é exatamente igual em instantes diferentes. No entanto, o amor continua existindo independentemente das circunstâncias em que estejamos ao ver e rever o ser amado.


Em outras palavras: podemos aplicar a lógica do efêmero x eterno não apenas à beleza presente nos raios de sol, em uma determinada paisagem, ou em um croqui de vestido – beleza essa cuja percepção fica muitas vezes restrita ao olhar virgem dos artistas natos. Esse conceito dicotômico de beleza se faz notar também no mais representativo dos sentimentos humanos: o amor, em todas as formas como o conhecemos, mas em especial no amor passional entre duas pessoas. Um homem que se apaixona por uma mulher certamente viu nela a mesma beleza fugaz que C.G. viu nos raios de sol à sua janela em determinada manhã. O homem que ama uma mulher, certamente vê nela, todos os dias, uma beleza intrínseca, imutável e inerente à sua própria natureza.


As ideias de “amor à primeira vista” e de um amor mais pacato, tranquilo e duradouro, construído com o tempo, vistas algumas vezes como excludentes entre si; não o são, necessariamente, dentro da visão aqui proposta. O amor à primeira vista seria justamente aquele surto de sensibilidade e arrebatamento em que o homem (ou a mulher) vê no outro a beleza particular daquele instante, a efemeridade – a forma como a luz incide sobre ele, criando determinadas nuances de cor nos cabelos, na pele, nas roupas; o ângulo exato em que as pernas ou braços se cruzam; o plano de fundo; o reflexo das coisas ao redor na íris ou nas lentes dos óculos; uma infinidade de detalhes que somente alguém dotado de um verdadeiro dom artístico seria capaz de perceber... O “outro” amor, por vezes um pouco esquecido em virtude de ideais românticos, é exatamente a face de eternidade do belo – o casal de velhinhos que, depois de 50 anos casados, cheios de rugas, já acostumados às brigas diárias e longe de terem a aparência física de quando se conheceram, mesmo assim se amam (admitam-no ou não) e sofrem profunda e verdadeiramente quando perdem o outro.


Muitas mulheres já foram a inspiração de poetas apaixonados, o objeto de admiração de artistas em todas as épocas e em todas as partes do mundo. O amor não somente revela, torna evidente a beleza a quem ama: ele próprio é indubitavelmente belo – tanto em sua eternidade quanto na efemeridade de suas manifestações. Ainda que o artista não seja um amante (ao menos em um sentido mais restrito da palavra), pode certamente perceber a beleza nesse sentimento tão caracteristicamente humano. Amores de todos os tipos já foram foco de obras literárias: desde os amores platônicos, não correspondidos, servis, até aqueles mais bem-resolvidos e harmoniosos.


Ao longo de muito tempo de tradição literária, artistas tentaram – e ainda tentam – entender e explicar, ou, melhor dizendo, captar e expressar a beleza do amor através de suas obras. Alegar que as tentativas foram em vão seria uma injustiça para com o brilho e genialidade de algumas dessas obras. É possível dizer, no entanto, que não deram conta da complexidade desse tema – e talvez não seja possível fazê-lo. Resta-nos lançar sobre a relação entre a arte, a beleza e o amor um olhar no sentido oposto: a partir de um sentimento tão conhecido de todos, tão próximo da realidade cotidiana e ao mesmo tempo tão sublime, podemos refletir sobre a sensibilidade e a capacidade do ser humano de perceber a beleza do mundo com os olhos infantis de um verdadeiro artista.



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Bibliografia consultada:

BAUDELAIRE, Charles. "O pintor da vida moderna". In: Obras Completas.



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Vivian Borges Paixão

DRE: 108061899

Um comentário:

  1. Excelente, Vivian. Você fez um texto pessoal, com escrita e estilo próprios, com encademaento de pensamentos e exemplos. Um primor. Gostei muito da sua visão de que o apreciador da obra de arte (o leitor) é, em alguns momentos, um artista a seu modo, isso é muito importante, fazer vacilar a separação entre escritor e leitor. Gostei também da aproximação que você fez com o amor, tema, como você disse, privilegiado na arte em geral. Aliás, sugiro que você leia o Banquete, do Platão, há lá a primeira grande teoria sobre o amor. Enfim, perfeito. Abraços e boas férias.

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